Caldeira

SEMANA CALDEIRA 2026

Caldeira Report

Edição 01 · Semana Caldeira 2026

Uma leitura dos sinais, ideias e movimentos revelados pela Semana Caldeira 2026 por Tulio Milman e Felipe Pimentel.

ENTENDA O REPORT

Big Numbers da Semana Caldeira

  • 5dias
  • 12,7mil pessoas
  • 450+palestrantes
  • 151,9horas de conteúdo
  • 1.224.715palavras

Satish Iyer, “A arte da inovação intencional”, Semana Caldeira 2026

Introdução

A anatomia do olhar

Uma leitura dos sinais, ideias e movimentos revelados pela Semana Caldeira 2026.

Em uma semana atravessada por ideias, experiências e perspectivas distintas, este relatório propõe uma pausa para observar o que permanece. Mais do que reunir conteúdos apresentados nos palcos, busca aproximar pontos de vista, reconhecer ideias que se conectam e prestar atenção também ao que ainda aparece de forma incipiente. Em sintonia com o convite da Semana Caldeira — inovar é saber ver —, a publicação percorre diferentes maneiras de interpretar o presente e imaginar o que pode vir a seguir.

Para chegar até aqui, partimos de um volume que nenhuma pessoa daria conta de acompanhar sozinha: 151,9 horas de conteúdo, 19.031 momentos de fala e mais de 1,2 milhão de palavras registradas nos palcos da Semana Caldeira. Ferramentas de inteligência artificial ajudaram a percorrer esse material; pessoas que estiveram nos palcos, nos corredores e nas conversas deram sentido ao que os dados apontavam. O resultado é uma curadoria híbrida, que combina a escala da máquina com a sensibilidade de quem viveu o evento.

As páginas a seguir se organizam em quatro maneiras de ver. Nos artigos, Salim Ismail, Uri Levine, Mariana Gutheil e Fred Gelli interpretam as transformações em curso a partir de suas trajetórias. Em Ideias que ficam, reunimos os sinais fortes que atravessaram a programação. Em A pergunta que ninguém fez, voltamos a nove palestrantes com perguntas que ficaram de fora. E no Relatório de ruídos, recolhemos palavras e ausências que surgiram à margem, mas que talvez antecipem o que vem por aí. Não há uma ordem obrigatória de leitura: cada seção pode ser aberta como uma janela própria para o presente.

Abertura

Saber ver

Pedro Valério, “Saper Vedere: inovar é saber ver”, Semana Caldeira 2026

Entre tantas contribuições, Leonardo da Vinci deixou uma ideia que atravessa os séculos: saper vedere, ou saber ver. À primeira vista, tudo parece simples, mas não é. Ver é mais do que apenas olhar. Exige atenção ao que salta aos olhos e ao que ainda não ganhou forma, nome ou consenso. É captar conexões improváveis e enxergar o que nasce quando pessoas, saberes e vivências distintas se cruzam. É assim que buscamos construir o Instituto Caldeira.

A Semana Caldeira demonstra bem esse propósito. Na quinta edição, mais de 12,7 mil pessoas passaram pelos nossos espaços e mais de 450 palestrantes participaram ao longo de cinco dias de programação. Empresas, startups, universidades, governo, investidores, pesquisadores, artistas e empreendedores debateram temas como inteligência artificial, educação, cidades, cultura, sustentabilidade, liderança, negócios, saúde e comportamento. Esses números revelam a grandiosidade do evento, mas não traduzem a energia única que surge quando tudo isso se encontra.

É nesse ponto que este relatório se torna importante. Ele não é apenas uma lembrança da Semana Caldeira, nem uma simples coletânea de resumos. Este relatório procura enxergar o todo, descobrir conexões e registrar o que esse grande encontro de pessoas e ideias pode revelar sobre o presente e sobre as transformações que já despontam. Para isso, escolhemos quatro formas de ver.

A primeira é a dos sinais fortes: ideias, preocupações e movimentos que apareceram várias vezes e já podem ser vistos com clareza. São os padrões que surgiram quando milhares de falas, encontros e provocações começaram a se repetir ao longo da Semana.

A segunda refere-se aos sinais fracos. Usamos tecnologia e curadoria humana para buscar o que apareceu pouco, quase como um ruído. Um sinal fraco não é necessariamente incompleto. Ele pode estar inteiro diante de nós, mas ainda não temos a distância, o repertório ou o tempo para enxergá-lo claramente. Alguns vão desaparecer. Outros, talvez, se tornem os sinais fortes do futuro.

A terceira forma é olhar para as perguntas que ninguém fez. Ao final de algumas palestras importantes, buscamos não repetir o que já foi discutido, mas sim mudar o ponto de vista. Uma pergunta diferente pode ampliar a conversa, desafiar certezas e, às vezes, revelar algo que sempre esteve ali.

A quarta forma de ver é pelos olhos de quem convidamos para pensar junto. Fred Gelli, Uri Levine, Mariana Gutheil e Salim Ismail escreveram artigos exclusivos para este relatório. São quatro perspectivas diferentes e, por isso mesmo, se complementam. Gelli vê a inovação como uma simbiose e compara o Caldeira a um banco de coral, em que a riqueza decorre das relações que ele permite. Levine questiona o que continua essencial em um mundo transformado pela inteligência artificial. Gutheil observa o estresse, a exaustão e o ceticismo que crescem na relação entre pessoas e marcas. Ismail fala sobre a aceleração tecnológica e o desafio das instituições que precisam aprender a se adaptar a um mundo que muda mais rápido do que elas.

Essas quatro formas de ver têm algo em comum: nenhuma quer prever o futuro, mas sim entendê-lo enquanto acontece.

É isso também que o Caldeira faz: cria ambientes onde diferentes setores da sociedade podem se encontrar, trocar experiências, experimentar possibilidades e construir respostas que dificilmente surgiriam isoladamente.

A Semana Caldeira amplia esse movimento, começando pelo seu território: Quarto Distrito, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil, América do Sul e o mundo.

Por isso, este relatório não encerra o que aconteceu, mas convida a continuar observando. É um chamado para ajustar o foco sem perder a complexidade, organizar os aprendizados sem apagar as ambiguidades e reconhecer o que já se mostra sem esquecer o que ainda pulsa nas margens.

O futuro nunca se revela por completo. Mas algumas de suas formas já despontam. Inovar é, também, saber reconhecê-las.

“A revolução global da IA na saúde”, Semana Caldeira 2026

Seção 01

Artigos

Esta primeira seção reúne quatro vozes que olham para a transformação por ângulos complementares. Salim Ismail examina a distância entre a velocidade das mudanças e a capacidade de adaptação das instituições; Uri Levine investiga o que continua essencial para empreender em meio à expansão da inteligência artificial; Mariana Gutheil observa o estresse, a exaustão e o ceticismo que crescem na relação entre pessoas e marcas, e defende a imaginação como responsabilidade; e Fred Gelli propõe pensar a inovação a partir das relações de interdependência que sustentam a vida. Em conjunto, os textos deslocam a pergunta do que as novas ferramentas tornam possível para o que escolhemos fazer com elas, e com quem.

Artigo 1

Salim Ismail

O LIMITE DE VELOCIDADE

Salim Ismail, autor de Organizações Exponenciais e cofundador da Singularity University

Salim Ismail, “Além do exponencial: o futuro da superinteligência”, AI Day 2025

Salim Ismail

Tradução: Instituto Caldeira

Fui convidado para contribuir com este ensaio para o Caldeira Report. Disse sim sem hesitar. Não por educação — mas porque o que está acontecendo em Porto Alegre reflete exatamente o tipo de pergunta com a qual venho lidando há quinze anos. Uma pergunta que se moveu, nesse tempo, da teoria abstrata para uma realidade urgente.

Durante a maior parte desses anos, quando eu falava sobre aceleração exponencial, as pessoas ouviam educadamente. Achavam interessante. Até instigante. Mas a premissa subjacente na sala era sempre a mesma: ainda estamos longe disso.

Não estamos longe disso. Estamos dentro disso. A aceleração que eu descrevia não é mais algo acontecendo em um gráfico. É o ambiente. É o ar que respiramos. E o que ela está revelando — com uma clareza que considero ao mesmo tempo fascinante e alarmante — é um paradoxo fundamental do nosso tempo.

Os indivíduos estão se adaptando à mudança exponencial notavelmente bem. As instituições, não. E essa lacuna definirá o próximo século.

Isso não é uma metáfora. É um diagnóstico estrutural. E acertá-lo importa enormemente — porque a prescrição muda completamente dependendo de onde você localiza o problema.

O indivíduo está à frente da curva

Olhe para o que está se tornando disponível para os indivíduos. O apoio à saúde mental, que antes exigia geografia, dinheiro e sorte, agora está acessível em um telefone. Educação sem barreiras geográficas — recursos de aprendizado que antes estavam trancados em instituições de elite agora estão ao alcance de qualquer pessoa com uma conexão e um dispositivo. Medicina personalizada que era ficção científica há uma década. Ferramentas de IA que multiplicam a capacidade cognitiva de maneiras que, honestamente, ainda estamos lutando para mensurar. O acesso ainda não é universal — ainda há um longo caminho a percorrer —, mas a direção é clara e o ritmo de expansão é diferente de tudo o que vimos antes.

O ser humano individual tem um arsenal de adaptação que está crescendo rápido. E onde ele chega, as pessoas o utilizam. Aprendendo novas habilidades no meio da carreira. Reinventando suas vidas profissionais. Construindo coisas a partir de lugares que antes eram considerados periféricos.

O indivíduo está se movendo. O indivíduo está se adaptando.

Agora olhe para os parlamentos. As universidades. Os sistemas nacionais de saúde. Os órgãos reguladores. Os bancos centrais. Os ministérios da defesa. Estruturas com décadas, algumas com séculos, outras com milênios de idade — projetadas camada por camada para um mundo de mudanças lineares, ciclos de feedback lentos e premissas estáveis. Elas foram feitas para durar. E duraram. Mas durar e se adaptar não são a mesma coisa.

Construímos instituições para um mundo que não existe mais. E estamos pagando o preço por esse descompasso agora mesmo.

Um estudante de MBA que entra hoje em um programa de ponta descobrirá que uma parcela significativa do que aprendeu já estará obsoleta antes de se formar. Não porque o programa seja ruim. Mas porque o mundo se move mais rápido do que um currículo de dois anos consegue acompanhar. Isso não é uma falha de projeto. É o mundo em que vivemos — e nenhuma instituição descobriu ainda como responder a isso no ritmo que o momento exige.

Os estados da matéria

Uso uma metáfora simples para explicar onde estamos. Pense nos estados da matéria. A água sólida — o gelo — quase não se move. Suas moléculas estão presas em uma estrutura rígida. Altamente estável, altamente resistente à mudança. Adicione energia e ela se torna líquida: flui, adapta-se ao recipiente, encontra um caminho ao redor dos obstáculos, responde ao ambiente. Adicione ainda mais energia e ela se torna vapor: invisível, onipresente, impossível de segurar nas mãos, transformando tudo o que toca.

É onde estamos. Estamos vivendo em um mundo de vapor. A quantidade de energia — tecnológica, econômica, social — sendo injetada no sistema é extraordinária e acelerada. E tudo o que foi projetado para ser sólido está lutando para se manter coerente sob o calor.

O problema é que ainda precisamos das coisas sólidas. Precisamos de instituições. Os seres humanos não conseguem funcionar sem estruturas que organizem a vida coletiva, distribuam o poder, protejam direitos e coordenem ações em escala. A história da civilização é, em muitos aspectos, a história da construção de instituições. Não estou argumentando que as instituições são o inimigo. Estou argumentando que as instituições que temos não são as instituições de que precisamos — e a lacuna entre essas duas coisas está se alargando a cada ano.

A pergunta à qual continuo voltando não é como destruímos essas estruturas. É algo mais difícil: como você gerencia coisas sólidas em um mundo que se transformou em vapor?

Por que o tamanho se tornou uma desvantagem

Por séculos, a lógica foi simples. Quanto maior, melhor. Nações grandes controlavam mercados maiores, logística mais eficiente, recursos naturais em escala, os exércitos mais poderosos. As vantagens do tamanho eram reais e cumulativas. Quando o ritmo da mudança era lento — imperceptível de uma geração para a outra —, uma estrutura massiva podia girar devagar e ainda chegar a tempo. O mundo esperava pelos países grandes. Os países grandes ditavam o ritmo.

Essa lógica se inverteu. E a pandemia da Covid-19 provou isso com uma brutalidade difícil de ignorar.

Aqui estava uma crise que exigia uma resposta rápida, coordenada e adaptativa. Exigia que os governos absorvessem informações rapidamente, tomassem decisões com dados incompletos, mudassem de rumo à medida que novas evidências surgissem e implementassem medidas em escala — tudo simultaneamente e a uma velocidade extraordinária. O que vimos? Países grandes — os Estados Unidos, o Brasil, a Índia — lutaram para responder. Seu tamanho, que sempre fora sua vantagem, tornou-se um obstáculo. Sua profundidade burocrática, sua complexidade política, sua pura massa institucional significavam que as informações se moviam devagar, as decisões chegavam tarde e a implementação era desigual.

Enquanto isso, países menores — Nova Zelândia, Islândia, Taiwan — moveram-se mais rápido. Não porque fossem mais ricos ou tivessem cientistas melhores. Mas porque eram menores.

Cadeias de decisão menores. Distâncias mais curtas entre os dados e a ação. Menos camadas entre um problema e uma resposta.

Isso não é um acidente. É o mundo exponencial selecionando um tipo diferente de aptidão organizacional. E isso aponta diretamente para o que considero uma das mudanças estruturais mais importantes das próximas décadas: a vantagem competitiva da escala está colapsando.

É por isso que acredito que o futuro pertence às micro democracias. Às cidades, aos estados e às estruturas regionais que conseguem tomar decisões na velocidade que este mundo exige. Não estou prevendo o fim dos Estados-nação. Estou dizendo que eles perderão progressivamente a relevância — econômica, política e cultural — a menos que aprendam a descentralizar verdadeiramente o poder. Não como retórica. Não como organogramas de reorganização. Mas como transferências reais de autoridade para estruturas menores, mais rápidas e capazes de agir no local.

Dois lados, uma realidade

Quando falo sobre isso, vejo as pessoas se dividirem em dois grupos. Sempre. Sem exceção.

O primeiro grupo diz: precisamos desacelerar. Precisamos regular de forma mais agressiva. Precisamos pisar no freio, recuperar o controle, criar um fôlego para a sociedade acompanhar. Eu entendo esse impulso. Ele vem de um lugar genuíno — um desejo de proteger as pessoas que estão sendo deixadas para trás por um ritmo de mudança que não escolheram e não conseguem absorver facilmente. Há uma compaixão real nessa posição, e eu não a descarto.

Mas não acredito que seja viável. A história não registra um único caso em que a humanidade tenha revertido com sucesso um avanço tecnológico significativo depois que ele já estivesse em curso. Não paramos a prensa de Gutenberg — embora ela tenha desestabilizado todas as estruturas de poder existentes na Europa. Não paramos a eletricidade — embora ela tenha destruído indústrias e modos de vida inteiros. Não paramos a internet — embora todas as instituições do establishment, da mídia às finanças e aos governos, tenham tentado, de várias maneiras, contê-la.

Não vamos parar a inteligência artificial. E a energia que gastamos tentando fazer isso é uma energia que deixamos de aplicar na questão muito mais produtiva: como nos adaptamos?

O segundo grupo entende que a adaptação é a única opção real. É onde me posiciono — não com resignação fatalista, mas com a convicção de que a adaptação é possível e, em última análise, mais humana do que a resistência. Porque a resistência adia a dor sem evitá-la. A adaptação constrói algo novo em seu lugar.

O que estamos perdendo — e por que isso importa

Preciso ser honesto sobre o custo. Porque existe um, e ele é sério.

Estamos nos movendo tão rápido que estamos perdendo a sabedoria. Não o conhecimento — temos mais conhecimento disponível do que em qualquer outro momento da história humana. Mas sabedoria é diferente de conhecimento. Sabedoria é o que acontece quando o conhecimento é testado pelo tempo, refinado pela falha, lapidado pelo atrito da experiência e transmitido de uma geração para a seguinte por meio de histórias, relacionamentos e práticas compartilhadas. A sabedoria é lenta. A sabedoria exige repetição. A sabedoria é, por natureza, uma coisa sólida.

E, em uma civilização a vapor, as coisas sólidas se dissolvem.

Estamos perdendo cultura no mesmo ritmo. As tradições culturais que davam às comunidades coerência, identidade e significado foram construídas ao longo de gerações de experiência acumulada. Elas não podem ser reconstruídas no ciclo de atualização de um aplicativo. Estamos perdendo aquele tipo de especialização profunda que só vem ao se passar dez mil horas fazendo uma única coisa — porque o mundo continua dizendo às pessoas que aquilo em que gastaram dez mil horas agora está automatizado, obsoleto ou irrelevante. E estamos perdendo a memória institucional que permitia o funcionamento de organizações complexas — o conhecimento não escrito de como as coisas realmente funcionam, guardado na cabeça de pessoas que agora estão se aposentando mais rápido do que conseguem transferir o que sabem.

Isso não é nostalgia. Não estou defendendo a desaceleração. Estou defendendo que precisamos levar a preservação da sabedoria a sério como um problema de design — e não apenas como uma aspiração cultural. Se não o fizermos, construiremos cada vez mais rápido sobre fundações que estão silenciosamente apodrecendo.

A aproximação da Singularidade

Há mais uma coisa que preciso dizer — porque é inevitável, e porque muitas vezes é descartada como ficção científica ou tratada como uma tragédia anunciada. Nenhuma das duas respostas é útil.

Estamos nos aproximando do que Ray Kurzweil — meu colega na Singularity University — chamou de singularidade tecnológica. O conceito refere-se a um limiar: o ponto em que a inteligência artificial supera a capacidade cognitiva humana em praticamente todas as dimensões relevantes. Não apenas no xadrez, no reconhecimento de imagens ou na geração de texto. Em todos os campos. Quando isso acontecer, a taxa de progresso tecnológico — que já está sendo impulsionada significativamente pela IA — acelerará além do que as mentes humanas conseguem acompanhar ou prever de forma significativa.

Isso não é ficção científica. É uma trajetória sustentada por décadas de medições empíricas. Os modelos de IA disponíveis hoje fazem coisas que eram definitivamente impossíveis há três anos. Não difíceis — impossíveis. A taxa de evolução não está desacelerando. E no momento em que esses sistemas começarem a projetar seus próprios sucessores — o que já está começando —, o ciclo de feedback se fecha de uma forma que muda tudo.

Mas eis o que a Singularidade não significa: ela não significa o fim da necessidade de instituições. Não significa que podemos automatizar nosso caminho para fora do desafio de organizar a vida humana coletiva. Na verdade, torna o problema institucional ainda mais urgente — porque o abismo entre o que a tecnologia pode fazer e o que nossas estruturas de governança conseguem gerenciar se tornará catastrófico se não agirmos.

O que a Singularidade exige não é rendição, tampouco pânico. Exige instituições projetadas para um ambiente operacional fundamentalmente diferente. Ágeis o suficiente para acompanhar o ritmo da mudança. Pequenas o suficiente para serem coerentes. Transparentes o suficiente para conquistarem confiança. E humildes o suficiente para saberem quando estão erradas e precisam mudar de rumo.

Temos dois futuros possíveis. O futuro que teremos depende inteiramente de construirmos as instituições que o mundo exponencial exige — ou de continuarmos defendendo aquelas que o mundo linear deixou para trás.

Esse é o trabalho. Essa é a única pergunta que importa agora. E não é uma pergunta que um único país, um único setor ou uma única geração possa responder sozinha.

É por isso que estarei em Porto Alegre no dia 1º de dezembro, no AI Day do Instituto Caldeira. Porque acredito que ecossistemas como este — onde especialistas em tecnologia, empreendedores, formuladores de políticas e líderes culturais estão na mesma sala, tentando genuinamente pensar juntos — são exatamente de onde virão as respostas úteis. Não do topo de instituições grandes e lentas. Das margens. Dos pequenos. Dos rápidos.

O limite de velocidade não é definido pela tecnologia. Nunca foi. Ele é definido por nossas instituições. E, ao contrário das leis da física, esse limite nós realmente podemos mudar.

Se a aceleração expõe os limites das estruturas criadas para um mundo mais lento, ela também muda as condições em que pessoas e organizações criam valor. O próximo texto desloca o foco das instituições para o empreendedorismo: diante de ferramentas que aceleram a execução, o diferencial pode estar menos em fazer mais depressa e mais em escolher com clareza qual problema merece ser resolvido.

“Quem constrói a ponte”, Semana Caldeira 2026

Artigo 2

Uri Levine

A IA MUDA TUDO? O FUTURO É DIFERENTE.

Uri Levine, fundador do Waze, do Moovit e de mais uma dúzia de startups; autor dos livros Apaixone-se pelo problema, não pela solução e O Simples Vence; e fundador da Uri Levine Startup Academy

Uri Levine, “Apaixone-se pelo problema”, Semana Caldeira 2026

Uri Levine

Tradução: Instituto Caldeira

Na verdade, não. “Apaixone-se pelo problema, não pela solução” se torna ainda mais importante — e “o simples vence”, mais ainda.

Quando o jornalista brasileiro Tulio Milman procurou meu editor, Marcial Conte Jr., e me convidou para contribuir com este relatório, eu soube imediatamente sobre o que queria escrever: o que a IA muda — e, talvez mais importante, o que ela não muda.

Tenho ouvido muito, ultimamente, que agora tudo é diferente, com IA: consigo criar um produto novo em duas semanas, com IA; substituí meu atendimento ao cliente, com IA; criei minha estratégia de entrada no mercado em tempo recorde, com IA…

Adivinhe: você está certo. Mas outras cem pessoas como você também estão. Usar IA para ganhar produtividade é um dado: se você não usar, vai perder para alguém que usa — e todo mundo usa.

O seu desafio está mudando. Não se trata mais de prototipar rápido ou de reunir informações de mercado em um dia; trata-se de conquistar espaço na mente do cliente. Lembre-se: existem centenas como você.

Por isso, o futuro continua o mesmo: manter o foco no essencial.

Apaixone-se pelo problema, não pela solução – essa é a essência de tudo. A forma mais simples de criar valor é resolver um problema. As pessoas não se importam com o que você faz; elas se importam com o que você faz por elas! A maioria das startups fracassa porque não resolve problema algum.

Erre rápido – empreender é uma jornada de fracassos, e o nosso sucesso depende da capacidade de nos recuperarmos rapidamente dos erros e fazermos outra tentativa, e mais outra. Lembre-se: o maior inimigo do bom o suficiente é o perfeito! Startups vencem pela velocidade; se você está tentando deixar tudo perfeito, está lento demais.

Tomar decisões difíceis é difícil – conversei com muitos empreendedores cujas startups fracassaram e perguntei por quê. Muitos responderam: “o time não era o certo”. Continuei perguntando o que queriam dizer com isso e ouvi motivos diferentes (na maioria das vezes, as pessoas não eram boas o suficiente). Então fiz a pergunta mais importante: quando vocês perceberam que o time não era o certo? A resposta foi assustadora: todos disseram que no primeiro mês. Aí você pensa: espere um pouco — se você sabia, já no primeiro mês, que o time não era o certo, que havia alguém que não deveria estar ali, e não fez nada, o problema não era o time. O problema era que o CEO não tomou a decisão difícil. O resultado, aliás, é sempre o mesmo: as pessoas de melhor desempenho vão embora. Vão embora porque não querem estar em um lugar incapaz de tomar decisões difíceis, e vão embora porque têm escolha. Construir uma startup de sucesso é difícil. É difícil quando você tem o time certo, e quase impossível se os seus melhores talentos estão saindo enquanto você mantém pessoas que não deveriam estar ali.

Foco – foco não é o que fazemos; é o que deixamos de fazer. Essas são as decisões difíceis: dizer NÃO.

A simplicidade é o último grau da sofisticação (Leonardo da Vinci) – a gente meio que entende, mas não entende. Pense nos maiores produtos do mundo — a busca do Google, Waze, iPhone, WhatsApp, Instagram, Uber etc. — e pergunte a si mesmo o que os tornou tão bem-sucedidos. Podemos citar a tecnologia, o pioneirismo ou até a execução — sim, concordo com tudo isso, mas não foi nada disso. Foi a simplicidade que os tornou bem-sucedidos.

Sou empreendedor, e muito bem-sucedido, sem dúvida, mas também sou professor por natureza, então me sinto igualmente recompensado quando construo algo sozinho ou quando oriento alguém a construir. Por isso, atuo como mentor dos meus CEOs e ensino empreendedorismo na IE University, em Madri, na Universidade de Tel Aviv, em Israel, e em vários outros programas.

Escrever meu livro Apaixone-se pelo problema, não pela solução, publicado pela Citadel (Marcial Conte Jr.), fez parte de cumprir meu destino como professor: pegar o meu conhecimento prático e compartilhá-lo com você. Steve Wozniak, cofundador da Apple, chamou o livro de bíblia dos empreendedores e escreveu o prefácio. A segunda parte foi um novo livro, Simple Wins, publicado (de novo pela Citadel) primeiro no Brasil, que compartilha mais perspectivas e os principais aprendizados desde o primeiro livro — por exemplo, em vez de dizer apenas o que fazer, também diz o que NÃO fazer e quais são os erros mais comuns a evitar.

Agora vem a parte final do meu destino de professor: reunir todo o meu conhecimento em uma academia dedicada a empreendedores, a Uri Levine Startup Academy (urilevine.academy) — uma escola on-line em que eu (e outras pessoas) ensino como construir uma startup, como construir uma startup de sucesso, como construir um unicórnio: do zero ao unicórnio.

Essa academia está começando pelo Brasil!

Agora volte ao início deste artigo e pergunte a si mesmo: a IA vai tomar as decisões difíceis por você? A IA vai montar um time incrível para você? A IA vai entender a mentalidade dos seus usuários, a percepção deles, e criar simplicidade para eles?

A essência continua a mesma: criar valor para seus clientes, montar um time incrível, tornar as coisas simples e rápidas e focar em tudo isso — e SOMENTE nisso.

A provocação de Uri Levine sobre o papel insubstituível das escolhas e da clareza de propósito diante do avanço tecnológico ganha uma camada ainda mais humana no relato a seguir. Mariana Gutheil estende essa reflexão para o impacto do excesso de estímulos e da busca frenética por atenção no bem-estar individual e coletivo. Se a tecnologia nos desafia a fazer o essencial com simplicidade, também nos convida a questionar se a direção que escolhemos respeita os limites da nossa própria atenção e saúde emocional.

Artigo 3

Mariana Gutheil

FUTURO TENSIONADO

Mariana Gutheil é pesquisadora de comportamento, conselheira de empresas e cofundadora da No One.

Mariana Gutheil, “Do clique ao crescimento”, Semana Caldeira 2026

Mariana Gutheil

Nos painéis que participei na Semana Caldeira, percebi que voltamos várias vezes à mesma questão. Ouvimos com frequência que o consumidor mudou: está mais exigente, mais conectado, mais difícil de agradar. Mas será que ele está mesmo mais exigente? Ou está simplesmente exausto?

Há anos acompanhando as relações entre pessoas e marcas dos mais diversos segmentos, vejo crescerem três sentimentos que deveriam preocupar quem lidera negócios e oferta produtos, serviços ou experiências: estresse, exaustão e ceticismo.

As pessoas estão cansadas de mensagens que disputam sua atenção, de promessas que não se cumprem, de relações que parecem existir apenas para estimular a próxima compra. E esse cansaço não se restringe aos consumidores. Também está nos executivos, pressionados por metas, indicadores e ciclos de decisão cada vez mais curtos. Está nas equipes, nas famílias, nas relações sociais. Somos, ao mesmo tempo, criadores e habitantes de um mundo que exige cada vez mais de todos nós.

O paradoxo é que isso acontece justamente quando nunca tivemos tantas ferramentas para compreender comportamentos, antecipar necessidades e facilitar a vida das pessoas. As jornadas ficaram mais fluidas, os serviços mais acessíveis, as comunicações mais personalizadas. Aprendemos a eliminar atritos, reduzir etapas, aumentar a conveniência.

Mas a soma dessas melhorias não está necessariamente produzindo uma experiência realmente melhor.

De que adianta termos capacidade para desenhar praticamente qualquer experiência, se continuamos desenhando um mundo do qual as pessoas estão cansadas?

Quando o sucesso de cada parte compromete o conjunto

O design me ensinou a olhar para os problemas a partir das pessoas. A observar seus comportamentos, compreender suas necessidades e questionar soluções que pareciam óbvias. Essa forma de pensar transformou organizações inteiras que antes operavam a partir da lógica industrial - que trazia as máquinas no centro - e contribuiu para produtos e serviços muito melhores.

Mas existe um ponto cego na maneira como aplicamos esse conhecimento.

Desenhamos jornadas de compra, de aprendizagem, experiências digitais, estratégias de relacionamento e modelos de serviço como se cada uma dessas interações pudesse ser avaliada isoladamente. Otimizamos a conversão de uma página, a retenção de um aplicativo, o engajamento de uma campanha, a produtividade de uma equipe. Cada decisão faz sentido dentro dos objetivos que recebeu. O problema aparece quando observamos o resultado acumulado. Uma empresa quer conquistar mais cinco minutos da nossa atenção. Outra quer aumentar a frequência de compra. Uma terceira descobre uma maneira mais eficiente de nos estimular a voltar. Nenhuma dessas decisões, individualmente, parece capaz de produzir uma crise de exaustão. Mas todas disputam os mesmos recursos humanos: tempo, atenção, energia, confiança.

Não existe um consumidor diferente para cada jornada que desenhamos. Existe uma pessoa vivendo todas elas, enquanto trabalha, estuda, cuida da família, enfrenta preocupações e tenta encontrar algum espaço para si.

O que funciona para cada empresa nem sempre funciona para a vida de quem se relaciona com todas elas.

Esse é um problema de design. Não apenas de interfaces ou serviços, mas de como definimos objetivos, estabelecemos incentivos e decidimos o que merece ser considerado um bom resultado.

Crescer não é amadurecer

Quando estudei biologia, especialmente a partir do pensamento do meu saudoso professor Humberto Maturana, encontrei uma perspectiva que continua influenciando minha maneira de olhar para as organizações e para a cultura: a vida acontece nas relações. A natureza não oferece modelos perfeitos para os negócios, mas é um extraordinário repertório de inovação, adaptação e transformação. Ao longo de bilhões de anos, a vida encontrou inúmeras maneiras de se reorganizar, estabelecer relações e criar condições para sua continuidade.

Uma distinção importante que também aprendemos com a biologia, é que crescimento e amadurecimento não são a mesma coisa. Nos organismos, crescer em tamanho não é um processo indefinido. Ao longo da vida, ganham importância outras capacidades: manutenção, renovação, adaptação e reprodução. Nos ecossistemas, a dinâmica também muda com o tempo. Espécies pioneiras ocupam rapidamente novos espaços; à medida que outras relações se estabelecem, surgem formas diferentes de organização, circulação de recursos e resiliência.

Não existe uma trajetória única na natureza, muito menos uma fórmula biológica para administrar empresas. Mas existe aqui uma pergunta poderosa: se crescer é apenas uma das dimensões do desenvolvimento, o que significa amadurecer para um negócio?

Uma organização pode aumentar suas receitas enquanto desgasta a confiança de seus clientes. Pode ampliar sua produtividade enquanto esgota suas equipes. Pode gerar resultados financeiros extraordinários enquanto compromete condições sociais e ambientais das quais sua atividade depende, e com isso encurtar sua vida útil.

Os números podem estar corretos e, ainda assim, contar uma história incompleta.

Prosperidade exige resultados econômicos. Empresas precisam gerar riqueza, investir, inovar e crescer. Mas uma prosperidade capaz de se sustentar ao longo do tempo também depende da saúde das relações que tornam esses resultados possíveis. Não há contradição necessária entre crescimento e responsabilidade. Há, sim, uma diferença entre crescer consumindo as próprias condições de continuidade e crescer fortalecendo-as.

O desafio não é diminuir nossa ambição de crescimento, mas ampliar nossa ideia de sucesso. Crescer é importante, mas amadurecer significa desenvolver as condições para que essa prosperidade se sustente ao longo do tempo.

A imaginação que nos falta

É aqui que a imaginação se torna uma capacidade estratégica.

Costumamos associá-la à criatividade, à invenção de produtos ou à geração de ideias originais. Mas sua função mais transformadora é outra: permitir que reconheçamos que a realidade poderia estar organizada de maneira diferente.

A imaginação nos ajuda a questionar premissas que deixamos de perceber. A considerar alternativas que ainda não têm indicadores capazes de demonstrar seu valor. A formular perguntas que não cabem nos modelos de decisão existentes.

E isso é particularmente relevante em um momento de avanço acelerado da inteligência artificial. Estamos desenvolvendo uma capacidade sem precedentes de analisar informações, reconhecer padrões, gerar soluções e executar decisões. Podemos fazer mais, melhor e mais rápido. Mas velocidade não resolve um problema de direção.

Se continuarmos utilizando essas capacidades para perseguir os mesmos objetivos, apenas tornaremos mais eficiente a reprodução do presente. Podemos automatizar o excesso, personalizar a pressão, escalar a disputa por atenção e acelerar sistemas cujos efeitos já nos preocupam.

O desafio não é apenas imaginar novas soluções para os problemas que conhecemos. É imaginar outras formas de organizar as relações que produzem esses problemas.

Como seria uma experiência de consumo desenhada para respeitar a atenção das pessoas, em vez de capturá-la continuamente? Como seriam organizações que considerassem a saúde das relações tão importante quanto a eficiência das operações? Que decisões tomaríamos se avaliássemos seus efeitos não apenas no próximo trimestre, mas nos próximos dez anos?

Essas perguntas não exigem respostas definitivas, exigem disposição para experimentar.

Imaginar também é uma responsabilidade

Na segunda edição do relatório Futuro Tensionado, projeto desenvolvido pela No One, exploramos a ideia de protopia: um futuro que não precisa ser perfeito, apenas progressivamente melhor. Um futuro construído por escolhas, ajustes e aprendizados contínuos.

Gosto dessa perspectiva porque ela retira a imaginação do território das grandes promessas e a aproxima da responsabilidade cotidiana.

Não precisamos esperar por um novo sistema econômico, uma tecnologia revolucionária ou uma transformação completa das organizações para começar a desenhar de outra maneira. Podemos ampliar as perguntas que fazemos antes de criar um produto. Rever os indicadores que definem sucesso. Considerar efeitos que hoje tratamos como externalidades. Reconhecer que nem toda fricção precisa desaparecer e que nem toda oportunidade de capturar atenção precisa ser aproveitada.

Essas escolhas parecem pequenas diante da complexidade dos desafios que enfrentamos. Mas os sistemas que hoje nos exaurem também foram construídos por incontáveis decisões que, isoladamente, pareciam razoáveis.

Imaginação não nasce do nada. Ela se alimenta de repertório, e repertório se constrói no encontro com o que é diferente de nós. Talvez esteja aí um dos maiores valores dos dias que vivenciamos durante a Semana Caldeira. Quando a tecnologia encontra a arte, quando os negócios conversam com a ciência, quando perspectivas distintas desafiam nossas certezas, ampliamos o universo do que conseguimos conceber. E essa ampliação importa porque ninguém consegue desenhar um futuro diferente usando apenas as referências que já conhece.

Há uma responsabilidade particular para quem lidera organizações, desenvolve tecnologias ou desenha experiências. Nossas decisões não apenas respondem ao comportamento das pessoas. Elas também influenciam esse comportamento, moldam relações e ajudam a estabelecer aquilo que uma sociedade passa a considerar normal.

Somos responsáveis, em alguma medida, pelas condições de vida que nossas escolhas ajudam a produzir. Se fomos capazes de desenhar sistemas tão eficientes que acabaram contribuindo para nossa própria exaustão, também somos capazes de imaginar e construir outros.

A pergunta é se teremos coragem de usar nossa inteligência não apenas para fazer melhor aquilo que já fazemos, mas para decidir o que realmente vale a pena continuar fazendo. Eu prefiro acreditar que temos.

A defesa do foco e da criação de valor encontra outra escala no texto seguinte. Se empreender exige compreender problemas reais e fazer escolhas, pensar a inovação em sistemas vivos exige perceber também as relações que tornam essas escolhas possíveis. Fred Gelli amplia, então, o olhar: da solução criada por uma organização para as redes de cooperação, diversidade e pertencimento que podem fazer um ecossistema prosperar.

Artigo 4

Fred Gelli

UM BANCO DE CORAL

Fred Gelli é cofundador e CEO da Tátil Design, consultoria de branding e inovação com sede no Rio de Janeiro. Formado em design industrial pela PUC-Rio, leciona há duas décadas os cursos de Ecoinovação e Biomimética na mesma instituição. Criou a identidade visual dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016 e foi diretor criativo das cerimônias de abertura e encerramento. Reconhecido pela Fast Company como um dos 100 profissionais mais criativos do mundo, tem uma trajetória marcada pela convicção de que a natureza é o maior laboratório de design já existente.

Fred Gelli, “A natureza já testou o que sua marca ainda está tentando”, Semana Caldeira 2026

Fred Gelli

A Terra tem pouco menos de 13 mil quilômetros de diâmetro. Saber disso deveria ser tão elementar quanto conhecer o tamanho da casa onde vivemos. Afinal, existe uma diferença importante entre morar em uma quitinete e ocupar um palácio de 50 quartos. Essa informação muda tudo. Muda a maneira como planejamos, consumimos e dividimos o espaço.

Vivemos em um pequeno planeta que, até 2050, receberá mais 2 bilhões de moradores. E seguimos agindo como se a casa fosse infinita. Como se estivesse aqui para nos servir, disponível para tirarmos dela o quanto quisermos. Transformamos o Homo sapiens em Homo consumus. Passamos até mesmo a chamar as pessoas de consumidores, como se consumir fosse a nossa principal razão de existir.

O planeta, é bom lembrar, não precisa ser salvo. Nós é que precisamos. A natureza já atravessou cinco grandes extinções e continuará inventando a vida depois de nós. Ela é uma serial killer e, ao mesmo tempo, uma criadora compulsiva. Diante dela, somos recém-chegados. Os dinossauros dominaram a Terra por 150 milhões de anos. Nós estamos aqui há cerca de 300 mil e já nos comportamos como donos do lugar.

Talvez seja hora de trocar a lógica da exploração pela lógica da simbiose.

Na natureza, nenhum organismo prospera sozinho. A floresta não é apenas um conjunto de árvores. É uma rede de trocas, dependências, cooperação e competição. Um sistema em que a força de cada parte nasce também das relações que ela consegue estabelecer.

A vida não cresce apesar da interdependência. Cresce por causa dela.

É essa a inspiração para uma economia simbiótica. Uma economia na qual empresas, pessoas, comunidades e territórios não existam apenas para extrair valor uns dos outros, mas para ampliar mutuamente sua capacidade de viver, criar e se regenerar. O futuro não será construído pela organização que conseguir crescer sozinha. Será construído por aquelas que aprenderem a crescer com as outras.

Foi assim que enxerguei o Instituto Caldeira. Não apenas como um espaço de inovação, mas como um banco de coral.

Os corais ocupam uma parcela mínima dos oceanos, mas abrigam uma parte extraordinária da vida marinha. Eles criam condições para que diferentes organismos se encontrem, se protejam, disputem espaço, estabeleçam trocas e produzam novas possibilidades de vida. Sua potência não está em uma espécie isolada, mas na diversidade das relações.

O Caldeira tem algo dessa natureza. Ele aproxima pessoas que provavelmente não se encontrariam. Mistura empresas, universidades, empreendedores, pesquisadores, artistas e sonhos. Cria conexões entre conhecimentos distintos porque problemas complexos não serão resolvidos por uma única especialidade. Para enfrentar um engarrafamento, não basta chamar o engenheiro de trânsito. É preciso trazer também o antropólogo, o psicólogo, o designer e quem conhece a cidade com os pés.

Mas método não basta. Nós nos afogamos em post-its, processos e fórmulas para inovar. As ideias capazes de transformar a realidade precisam também de estética, poesia e afeto. Precisam de emojis de coraçãozinho, não apenas de foguetinho. O mundo necessita dessa energia que faz o brasileiro cantar enquanto trabalha, dessa inteligência afetiva difícil de traduzir e que eu gosto de chamar de borogodó.

O futuro é um enorme desafio criativo. E lugares como o Caldeira são terrenos férteis para semear as ideias de que esse futuro precisa. Como em um banco de coral, sua riqueza não está apenas no que existe ali, mas na vida que passa a existir porque ele existe.

Os artigos oferecem interpretações autorais e situadas sobre as mudanças em curso. A próxima parte muda de escala: em vez de acompanhar uma voz por vez, organiza ideias recorrentes em temas que atravessaram a programação. São sinais fortes — questões que já se mostram com nitidez e ajudam a compreender desafios presentes, sem pressupor que exista uma única resposta para eles.

“Sandro Dias com jovens do Geração Caldeira”, Semana Caldeira 2026

Seção 02

Ideias que ficam

O método e a curadoria

Esta seleção nasceu de um processo híbrido. Ferramentas de inteligência artificial analisaram mais de 150 horas de áudio e quase 20 mil momentos de fala; ao mesmo tempo, pessoas que circularam pelos diferentes palcos registraram, em tempo real, as ideias que mais chamaram sua atenção. O resultado é uma curadoria coletiva: humana e algorítmica.

O critério não foi o tamanho da plateia, o volume dos aplausos ou o número de seguidores de quem estava no palco. Foi a permanência: quais ideias continuam a provocar perguntas, desafiar certezas e orientar decisões depois que o evento termina?

Estas são onze delas — para quem pensa, executa, empreende, lidera, decide e constrói.

Luis Justo, “Inner Skills: as habilidades internas”, Semana Caldeira 2026

A ARTE DE DESAPRENDER

Aprender ficou mais fácil. Difícil é perceber o que já não serve.

Por muito tempo, acumular conhecimento foi uma vantagem. Depois, ganhou força a ideia de aprender a aprender: desenvolver a capacidade de buscar conhecimentos novos ao longo da vida. Hoje, com informação abundante e ferramentas capazes de produzir respostas em segundos, esse desafio se amplia. Não basta encontrar informação ou adquirir competências. É preciso avaliar de onde vêm as respostas, relacioná-las ao contexto, reconhecer seus limites e perceber quando uma convicção precisa ser revista.

Em Os sete saberes necessários à educação do futuro, Edgar Morin propõe uma educação que não se limite a transmitir conteúdos. Entre os desafios que apresenta estão ensinar o conhecimento sobre o próprio conhecimento, reconhecer os erros e as ilusões que podem atravessar nossas certezas e aprender a enfrentar as incertezas. Isso significa preparar as pessoas não apenas para responder ao que já conhecem, mas para formular perguntas melhores, lidar com problemas complexos e compreender as relações entre partes que, isoladas, parecem não ter ligação.

Aprender a aprender, nesse sentido, envolve observar como pensamos: que pressupostos usamos, o que deixamos de considerar, como distinguimos evidência de opinião e em que momento uma explicação deixou de dar conta da realidade. Também exige abertura para aprender com os outros e disposição para mudar de ideia diante de novas evidências. A educação se torna mais profunda quando forma pessoas capazes de participar da construção do conhecimento, e não apenas de reproduzir respostas.

Desaprender não é apagar o passado nem descartar todo saber adquirido. É compreender que conhecimentos e métodos foram construídos em determinadas condições e que podem deixar de servir quando essas condições mudam. Nas organizações, isso pode significar rever processos que já não resolvem os problemas. Na educação, pode significar examinar criticamente o que se ensina e como se aprende. Em ambos os casos, aprender de verdade inclui reconhecer os limites do que sabemos e manter a curiosidade necessária para continuar investigando.

A mudança pode causar desconforto porque põe nossas certezas à prova. Mas, se uma ideia nova apenas se soma ao que já acreditamos, sem alterar nossas perguntas ou nosso modo de olhar, talvez tenhamos acumulado informação sem aprender. Educação, então, não é só preparação para um mundo em transformação. É também a capacidade de compreendê-lo, questioná-lo e participar de sua transformação.

Márcia Rodrigues Capellari, Patrícia Fraga e Gabriella Bordasch, “Do legado ao futuro: inovação que transforma negócios e comunidades”, Semana Caldeira 2026

ANSIEDADES EMERGENTES

O futuro inquieta por dois lados: o planeta que muda e a tecnologia que acelera.

A emergência da ansiedade como sintoma contemporâneo talvez revele algo que vai além da experiência individual: uma dificuldade coletiva de habitar o presente quando o futuro parece ameaçador e o ritmo das mudanças não oferece tempo para assimilar o que acontece. Entre alertas climáticos, fluxos incessantes de informação e a pressão para acompanhar cada novidade, cresce a sensação de estar sempre em atraso, como se fosse preciso antecipar todos os riscos e responder a todas as demandas. Não se trata de reduzir a ansiedade a uma causa única, mas de reconhecer que ela também pode expressar o atrito entre a velocidade do mundo e os limites humanos de atenção, adaptação e cuidado.

A ansiedade climática e o estresse associado à tecnologia ajudam a nomear preocupações que atravessam a vida cotidiana. De um lado, eventos climáticos extremos e a percepção de riscos ambientais podem afetar a sensação de segurança e de futuro. De outro, a aceleração digital alimenta a impressão de que é preciso estar sempre atualizado, sob pena de ficar para trás.

Essas experiências não são iguais, nem devem ser tratadas automaticamente como diagnósticos clínicos. Mas apontam para uma pergunta comum: como manter bem-estar, vínculos e capacidade de agir em ambientes que parecem mudar mais rápido do que conseguimos acompanhar?

No Rio Grande do Sul, essa pergunta ganha uma dimensão particular: conviver com riscos climáticos torna urgente combinar prevenção, ciência, políticas públicas e conhecimento local. A vulnerabilidade também pode ser ponto de partida para imaginar respostas mais preparadas e solidárias.

Para aprofundar: Panu Pihkala, “Anxiety and the Ecological Crisis” (2020), sobre ansiedade ecológica; e Tarafdar et al., “The Impact of Technostress on Role Stress and Productivity” (2007), sobre estresse relacionado à tecnologia.

“Tour Institucional”, Semana Caldeira 2026

O TERRITÓRIO COMO ORIGEM

O mundo pode ser global. A inovação ainda nasce em algum lugar.

A conexão digital encurtou distâncias, mas não tornou todos os lugares iguais. Uma inovação ganha força quando conversa com as condições, a cultura, a história e as necessidades de quem vai usá-la. Copiar um modelo de fora pode parecer mais rápido; nem sempre é o caminho para criar algo relevante aqui.

Território não é apenas uma limitação geográfica. É também repertório: memória, modos de vida, saberes tradicionais, desafios concretos e relações entre pessoas. Quando esse repertório encontra ciência, tecnologia e empreendedorismo, pode surgir uma resposta que não existiria em nenhum outro contexto.

Reconhecer de onde se vem não é ficar preso às próprias origens; é compreender o repertório a partir do qual se olha o mundo. Toda criação nasce de algum lugar, de uma história, de uma paisagem, de certos problemas e modos de viver. Quando esse lugar é ignorado, corre-se o risco de apenas repetir soluções concebidas para outras realidades. Quando é reconhecido, torna-se matéria de criação: não para produzir algo limitado ao local, mas algo cuja autenticidade vem justamente de responder, com singularidade, ao que só poderia ser percebido dali.

Para o ecossistema gaúcho e latino-americano, a pergunta pode mudar de “como reproduzir o que deu certo em outro lugar?” para “o que podemos criar a partir do nosso chão que faça sentido também para o mundo?”.

“IA com confiança, ética e governança”, Semana Caldeira 2026

A GEOPOLÍTICA DOS DADOS E A SOBERANIA DE IA

A pergunta não é só o que a IA faz. É quem define como ela faz.

A inteligência artificial costuma ser apresentada como uma questão de produtividade, automação ou experiência do usuário. Mas há uma camada menos visível — e decisiva: quem controla os dados, os modelos e os critérios que influenciam as respostas e decisões?

A IA também abre debates que vão muito além da tecnologia. Como regular sistemas que atravessam fronteiras? Quem deve tributar os ganhos gerados pela automação? Como a disputa entre países por dados, infraestrutura e capacidade de processamento redesenha relações de poder? E quem arca com os efeitos socioeconômicos e laborais dessas mudanças? São questões que se cruzam com dilemas éticos e filosóficos sobre responsabilidade, privacidade, autonomia e o que significa delegar decisões a sistemas automatizados.

Para empresas e governos, soberania de dados e de IA não significa necessariamente construir tudo do zero. Significa compreender as dependências, saber onde estão os dados, avaliar os riscos e manter capacidade real de escolha. Também exige clareza sobre o que é enviado a sistemas externos e sobre quem pode acessar essas informações.

Antes de adotar uma ferramenta, vale fazer três perguntas: de onde vêm os dados? Como o sistema foi desenvolvido e avaliado? Quem responde quando uma recomendação automática afeta alguém?

Para aprofundar: NIST AI Risk Management Framework 1.0 (2023), uma estrutura para identificar e gerir riscos de IA; Shoshana Zuboff, The Age of Surveillance Capitalism (2019), sobre dados, poder e economia digital.

“Desenhando caminhos: lições de um designer, do interior para o mundo”, Semana Caldeira 2026

O ENCONTRO GERACIONAL E TRILHAS DAS JUVENTUDES

Idade diferente não garante perspectiva diferente, mas pode abrir espaço para ela.

As gerações mudam em ritmos acelerados, moldadas por tecnologias, acontecimentos e modos de viver que transformam suas expectativas sobre o trabalho e o futuro. Pessoas de diferentes idades convivem nas organizações com repertórios, experiências e relações distintas com a tecnologia, abrindo um espaço riquíssimo de trocas onde a escuta atenta permite que a inovação aconteça no encontro.

Essa sensibilidade para captar as transformações do presente esteve no centro da Trilha das Juventudes, iniciativa do Geração Caldeira que reuniu vozes diversas para investigar o que significa ser jovem hoje. Longe de ser apenas uma faixa etária, a juventude se revelou como um verdadeiro estado de espírito e uma disposição ativa para construir o amanhã. Luana Ozemela enfatizou que ser jovem é sonhar — não como mero devaneio, mas como um planejamento de longo prazo que projeta caminhos e transforma a educação em linguagem de libertação. Essa busca por entender o mundo encontra eco nas palavras de Yuri Zero, que posiciona a curiosidade como a força motriz que transforma o desconhecido em constante descoberta.

Complementando essa visão, Roberta Coelho (MIBR) ressaltou que a juventude reside no prazer pelo que se faz e na consciência do impacto gerado, mostrando que realização e propósito caminham juntos. Em meio ao excesso de informação, Anamaíra Spaggiari destacou a importância central de encontrar significados para orientar escolhas com clareza e alinhar aspirações individuais a causas maiores. Por fim, Piangers trouxe a esperança e a generosidade como pilares para crer no futuro e agir ativamente por ele, lembrando que o sucesso só ganha sentido quando compartilhado. Juntas, essas perspectivas revelam que escutar as juventudes é essencial para antecipar tendências e reconhecer os sinais de um mundo em profunda reinvenção.

Fernando Tornaim, Felipe Melnick, Bruno Zaffari e Frederico Renner Mentz, “Por dentro da estratégia das grandes incorporadoras”, Semana Caldeira 2026

A LIDERANÇA EM INCERTEZA

Esperar pela certeza também é uma decisão e pode ter um custo.

Em ambientes de mudança rápida, esperar por informações perfeitas pode significar perder a oportunidade de agir. Isso não quer dizer decidir por impulso: significa distinguir o que já sabemos, o que ainda precisamos descobrir e qual é o próximo passo que podemos testar com responsabilidade.

A liderança, nesse cenário, não depende de prever o futuro com exatidão. Depende de tornar explícitas as incertezas, distribuir a capacidade de decisão e corrigir a rota quando surgem novas evidências. A centralização excessiva pode atrasar respostas; a autonomia sem critérios, por sua vez, pode gerar decisões desconectadas.

“Miramos na certeza e acertamos na angústia” é uma síntese provocadora desse dilema. O desafio não é eliminar toda a incerteza, mas criar condições para agir, aprender e ajustar o caminho sem fingir que o risco desapareceu.

Carlos Burle e André Bier Gerdau Johannpeter, “Além da onda: liderança para construir legados”, Semana Caldeira 2026

CAPITAL RELACIONAL

Conexão não é quantidade de contatos. Mas, quando falamos em “capital relacional”, vale perguntar: estamos reconhecendo o valor dos vínculos ou transformando pessoas em recursos?

Em um ambiente saturado de mensagens, automações e abordagens padronizadas, ser ouvido de verdade pode ser raro. Relações de confiança não se constroem apenas com frequência de contato ou com uma boa apresentação comercial. Dependem de consistência, reciprocidade e interesse genuíno pelo que a outra pessoa precisa. Mas até que ponto esse interesse é genuíno quando a relação também é tratada como algo capaz de gerar retorno?

Ouvir antes de propor pode ajudar a compreender melhor um problema e abrir possibilidades de colaboração. Mas, se a escuta for apenas uma técnica para vender mais depressa, a confiança vira instrumento e o vínculo passa a valer pelo que pode render. O desafio é construir relações sem reduzir as pessoas à sua utilidade, reconhecendo que nem todo encontro precisa resultar em vantagem, negócio ou oportunidade.

A pergunta, então, talvez não seja apenas se estamos tentando vencer a conversa ou entender o que ela pode tornar possível. É também: estamos interessados na pessoa ou no valor que podemos extrair da relação?

Alexandre Azevedo, “A virada biônica”, Semana Caldeira 2026

A GOVERNANÇA DOS AGENTES INTELIGENTES

Colocar um agente de IA em operação é o começo da responsabilidade, não o fim do projeto.

Criar ou contratar um agente de inteligência artificial pode parecer uma tarefa técnica: integrar sistemas, definir instruções e colocar a ferramenta para funcionar. Mas, depois da implementação, vêm as perguntas que determinam se a solução é confiável: quem acompanha os resultados? Em que situações o agente pode agir? Quando precisa pedir revisão? Como detectar e corrigir erros?

A metáfora de “adotar um animal de estimação” funciona como alerta: a novidade pode encantar, mas exige cuidado contínuo. Na prática, porém, um agente de IA não é um ser vivo. É uma tecnologia que precisa de limites, monitoramento, atualização e responsáveis humanos — além de uma organização preparada para intervir quando algo sai do esperado.

Adoção sem governança não é velocidade. É deixar decisões importantes sem acompanhamento.

“Robótica com o time”, Semana Caldeira 2026

INOVAÇÃO COMO PRÁTICA E HÁBITO

Comprar o equipamento não é o mesmo que começar a treinar.

Hackathons, workshops e campanhas podem despertar ideias. Mas a inovação perde força quando aparece apenas como evento, sem espaço para testar, aprender e incorporar o que funcionou ao trabalho cotidiano.

A analogia com o treino físico ajuda: ferramentas são importantes, mas não substituem a prática. Para inovar com consistência, organizações precisam reservar tempo para experimentar, definir como avaliar resultados e aprender também com iniciativas que não deram certo. Sem isso, a inovação vira discurso — ou uma sequência de atividades que não muda a rotina.

O hábito não elimina a criatividade. Pode criar as condições para que ela deixe de depender de ocasiões especiais.

“Apaixone-se pelo problema”, Semana Caldeira 2026

A BANALIZAÇÃO DO EXTRAORDINÁRIO

O incrível chega — e, em pouco tempo, vira parte do cenário.

Novas tecnologias podem passar rapidamente de novidade a rotina. Quando isso acontece, deixamos de perceber tanto o que mudou quanto as perguntas que essa mudança deveria provocar. Uma ferramenta pode parecer banal depois de algum tempo, embora continue alterando a maneira como trabalhamos, nos informamos ou tomamos decisões.

Esse processo de habituação é útil: permite que o cérebro filtre estímulos repetidos. Mas também pode diminuir nossa atenção para impactos que ainda estão se desenrolando. Diante da inteligência artificial, por exemplo, não basta se impressionar com o que já é possível. É preciso observar quem se beneficia, quem assume os riscos e o que não deveríamos delegar.

Recuperar o espanto não é celebrar toda novidade. É voltar a olhar com curiosidade — e também com critério.

Sam Burd e Pedro Valério, “Quem é o dono da sua IA?”, Semana Caldeira 2026

A RESPONSABILIDADE HUMANA INDELEGÁVEL

Se uma IA participa da decisão, alguém precisa responder pelo que ela faz.

Automatizar uma decisão não faz desaparecer suas consequências. Quando um sistema recomenda, classifica ou executa uma ação, é preciso perguntar quem definiu seus objetivos, quais valores foram incorporados ao seu funcionamento, quem acompanha seus resultados e quem pode contestá-los.

O dilema do bonde ajuda a revelar a profundidade do problema. Se um sistema precisa escolher entre dois danos, quem definiu quais vidas proteger? E será que a questão começa apenas no instante da escolha, ou também nas decisões anteriores: por que o sistema foi criado, para que situação foi projetado e quais riscos foram considerados aceitáveis? Na vida real, essas escolhas raramente aparecem como um dilema claro. Podem estar escondidas em dados, critérios de classificação e metas de eficiência.

Yuval Noah Harari chama atenção para o poder crescente dos algoritmos de interpretar comportamentos e influenciar escolhas. A questão, então, não é apenas se uma IA pode decidir melhor do que uma pessoa em determinada tarefa. É também quem passa a definir o que conta como “melhor” e se as pessoas afetadas conseguem compreender, questionar ou recusar uma decisão. Uma resposta estatisticamente eficiente pode ainda assim ser injusta, desumana ou incompatível com direitos e valores coletivos.

A imagem de um “CPF associado” a cada decisão tomada por uma IA é uma provocação útil. Deve existir uma pessoa ou organização identificável responsável pelo uso do sistema. Isso não significa que todo erro tenha uma causa simples ou que a responsabilidade jurídica seja igual em qualquer situação. Significa que a tecnologia não pode servir para dissolver a responsabilidade numa cadeia de fornecedores, modelos e procedimentos até que ninguém mais responda.

Sistemas podem processar informações e produzir resultados, mas não assumem, por si, o dever moral de justificar uma escolha, reparar um dano ou prestar contas a quem foi afetado. A responsabilidade continua sendo humana e institucional. Quanto maior o poder delegado à IA, mais importante se torna preservar a possibilidade de compreender, contestar e rever suas decisões.

“Do comportamento à experiência”, Semana Caldeira 2026

Seção 03

A pergunta que ninguém fez

Reconhecer sinais fortes ajuda a nomear aquilo que já está diante de nós. Mas toda fala pública também deixa perguntas em aberto: não necessariamente por falta de resposta, e sim porque o tempo, o formato e as prioridades de uma conversa delimitam o que pode ser dito. Esta seção retorna a algumas palestras por outra porta, usando perguntas não feitas para ampliar a escuta e iluminar aspectos que poderiam permanecer à margem.

Durante o aplauso, quando a palestra já tinha terminado, mas o cenário permanecia intacto, desafiamos nove palestrantes com perguntas que não haviam sido feitas.

Não para contestar ou confrontar, mas para abrir outra janela. A palestra revela o que o palestrante escolheu mostrar. A pergunta que ninguém fez tenta iluminar o que ficou na sombra. Não por omissão, mas porque o tempo é curto, a agenda é densa e algumas perguntas só aparecem quando a fala já acabou.

Os palestrantes que aparecem aqui foram escolhidos por um critério de diversidade de temas, de perfis, de geografias e de complementaridade com as mensagens-chave da Semana Caldeira. Juntos, eles formam um mosaico que representa muito do que foi dito e do que ainda pode ser dito.

O momento da pergunta importa. O aplauso ainda estava no ar. Havia ali uma abertura que logo se fecharia. É nesse intervalo que este tipo de pergunta funciona melhor: quando o pensamento ainda está quente e a guarda, por um instante, está baixa.

Carlos Burle, “Além da onda: liderança para construir legados”, Semana Caldeira 2026

Carlos Burle

Carlos Burle

Surfista de ondas grandes, Brasil

Pergunta

Quando você decide não entrar numa onda, o que pesa mais: você ou a onda? Existe algum tipo de algoritmo secreto para essa gestão de risco?

Resposta

A decisão de não entrar nunca é a mesma. Às vezes você tem certeza de que fez a coisa certa. Outras vezes pensa: “amarelou, devia ter ido”. A vida também se define pelas ondas que você não pega. Parte da longevidade vem de saber gerenciar a exposição ao risco. É preciso saber quando se expor, quando puxar o bico, como cair e como levantar. Isso é leitura de ambiente, e leitura de ambiente tem a ver com uma sabedoria que se acumula durante muito tempo. A vida é muito sobre essa leitura: saber em quais ondas entrar e em quais não entrar.

Diego Ontaneda, “Educação na economia da atenção”, Semana Caldeira 2026

Diego Ontaneda

Diego Ontaneda

Latin American Leadership Academy (LALA), Colômbia

Pergunta

Temos ferramentas para identificar quem deveria liderar. A humanidade não se beneficiaria de ferramentas para identificar quem jamais deveria liderar?

Resposta

Cem por cento. Buscamos jovens com amabilidade, humildade, espírito compassivo, curiosidade intelectual e atos de serviço à comunidade. Meu trabalho é ajudar a construir uma rede de boas pessoas, com coração, e ajudá-las a competir para que elas sejam os futuros presidentes, empreendedores e CEOs, e não aqueles que jamais deveriam ser.

Kelly Baptista, “Educação na economia da atenção”, Semana Caldeira 2026

Kelly Baptista

Kelly Baptista

Presidente da Fundação 1Bi, Brasil

Pergunta

Você falou sobre aprender a deixar algumas petecas cair. Qual é a primeira peteca que um jovem líder deveria deixar cair?

Resposta

O orgulho. A primeira peteca que deixei foi o orgulho de achar que não precisava de ajuda. Foi preciso abrir mão do orgulho para levantar a mão, pedir ajuda e seguir em frente. Também precisamos aprender a confiar em quem estamos formando. Para estar aqui hoje, tive de deixar muita coisa para trás e confiar em um time que provavelmente será meu sucessor e fará tão bem quanto eu. Precisamos acreditar na nossa liderança e aprender a deixar o nosso legado.

Xadalu Tupã Jekupé, “Inovar a história: tecnologia, memória e outros modos de produzir conhecimento”, Semana Caldeira 2026

Xadalu Tupã Jekupé

Xadalu Tupã Jekupé

Artista, Brasil

Pergunta

Seu trabalho fala de ancestralidade, passado e raízes. Vivemos em um tempo obcecado pela novidade. Onde esses dois caminhos se encontram?

Resposta

O futuro e o passado se encontram no presente. A essência disso é o tempo, a memória e o espaço, e a gente se desdobrar dentro do território. No mundo Guarani, Nhanderu foi flor e, ao mesmo tempo, sol. É dessa cosmologia que precisamos tentar nos aproximar: ser flor e, ao mesmo tempo, sol.

Sam Burd, “Quem é o dono da sua IA?”, Semana Caldeira 2026

Sam Burd

Sam Burd

Chief Strategy Officer da Dell Technologies, Estados Unidos

Pergunta

Você passou grande parte da sua carreira usando a tecnologia para transformar as coisas. O que aprendeu sobre onde a tecnologia não deveria estar?

Resposta

A tecnologia não deveria mexer na cultura de uma organização. Ela deve partir dos princípios orientadores da empresa e construir sobre eles. Esses princípios são um ativo extraordinário. Hoje temos capacidades sem precedentes. Pense no que as pessoas podem fazer com esse norte, com seu talento, e então acrescente tecnologia. Ela pode tornar tudo isso ainda melhor.

Luis Justo, “Inner Skills: as habilidades internas”, Semana Caldeira 2026

Luis Justo

Luis Justo

CEO do Rock in Rio, Brasil

Pergunta

Qual é a habilidade que usamos hoje e que precisaremos desaprender amanhã?

Resposta

Precisamos desaprender a ideia de que não precisamos desaprender. Com a velocidade e a flexibilidade exigidas hoje, desaprender será uma grande virtude. Parece paradoxal, mas talvez a principal habilidade seja justamente saber desaprender, e não identificar uma habilidade específica que deva ser abandonada.

Uri Levine, “Apaixone-se pelo problema”, Semana Caldeira 2026

Uri Levine

Uri Levine

Fundador do Waze e da Uri Levine Startup Academy, Israel

Pergunta

Bons empreendedores se apaixonam por problemas que existem. Quem deveria se apaixonar pelos problemas que ainda não existem?

Resposta

Simples: ninguém. Se você quer resolver um problema, ele precisa existir. Se tenta resolver algo que ainda não existe, você nem sabe se ele vai aparecer. E ninguém se importa porque ainda não sabe que existe um problema. Nesse caso, é trabalho para governos e outras instituições, não para empreendedores. O empreendedor morreria esperando o problema se tornar real.

Charles Fadel, “Educação para a era da IA”, Semana Caldeira 2026

Charles Fadel

Charles Fadel

Fundador e presidente do Center for Curriculum Redesign, Estados Unidos

Pergunta

Existe alguma habilidade que estamos aprendendo demais e que precisaremos desaprender?

Resposta

Precisamos tomar cuidado para não jogar o bebê fora junto com a água do banho. Imagino uma torre de Jenga: precisamos retirar os blocos que já não são necessários sem derrubar o edifício. Toda disciplina precisa passar por esse filtro. E quem pode ajudar a decidir quais blocos retirar não são apenas os especialistas, mas principalmente aqueles que usam aquela disciplina. Engenheiros podem dizer o que realmente importa na matemática. É preciso equilibrar teoria e prática, trazendo também a visão de quem utiliza aquele conhecimento.

Herbert Chen, “A anatomia dos ecossistemas de inovação”, Semana Caldeira 2026

Herbert Chen

Herbert Chen

TusHoldings, China

Pergunta

No Ocidente, é comum associar excesso de governo a menos liberdade, menos criatividade e menos inovação. A experiência chinesa parece desafiar essa ideia. Esse é um dilema verdadeiro ou falso?

Resposta

Quando falamos de governo, não deveríamos olhar apenas para o tipo de estrutura ou para as ideias, mas para os resultados. O objetivo é fazer com que as pessoas tenham uma vida melhor. Também não acredito que exista uma única estrutura capaz de produzir bons resultados. Os Estados Unidos são muito diferentes da China e também são inovadores e líderes em tecnologia. Modelos diferentes são como ferramentas diferentes para resolver um problema. As ferramentas podem mudar. O objetivo é o mesmo.

“Do comportamento à experiência”, Semana Caldeira 2026

Seção 04

Relatório de ruídos

As perguntas lançam luz sobre o que uma conversa ainda pode revelar. Os ruídos propõem um exercício vizinho, mas diferente: prestar atenção a palavras, ideias e ausências que surgiram sem ocupar o centro da programação. Se os sinais fortes ajudam a reconhecer aquilo que já se tornou evidente, os sinais fracos convidam a observar o que ainda está se formando — ou aquilo cuja importância corre o risco de desaparecer em meio ao excesso.

A seleção a seguir não apresenta previsões nem tendências consolidadas. Reúne pistas que podem ganhar relevância, mudar de sentido ou simplesmente revelar tensões do presente. Seu valor está justamente em manter aberta a observação: olhar para o que aparece nas margens sem confundir uma possibilidade emergente com uma certeza sobre o futuro.

Sinais fracos

RUÍDOS, OS SINAIS FRACOS

Na teoria da informação, ruído é tudo aquilo que atrapalha o sinal principal. Mas há outro modo de ver: ruído também é algo que viaja pelo mesmo canal e na mesma frequência da mensagem desejada, mas que diz outra coisa.

Estes são os ruídos da Semana Caldeira. São palavras, conceitos e silêncios que apareceram na margem e que, exatamente por isso, carregam algo que merece ser ouvido.

O processo foi o mesmo da seção Ideias que ficam: curadoria híbrida. Alimentamos uma ferramenta de IA com mais de 150 horas de transcrições e pedimos que ela identificasse, a partir de padrões predefinidos, quais sinais fracos faziam sentido dentro do contexto da Semana Caldeira. O resultado foi curado e aprofundado por pessoas. Saber ver também é saber encontrar o que ainda é quase invisível. Ou o que está sumindo.

Uri Levine, “Apaixone-se pelo problema”, Semana Caldeira 2026

01

METACOGNIÇÃO

É a capacidade de pensar sobre o próprio pensamento.

Psicólogos e educadores falam desse conceito há décadas. Mas ele ganhou uma urgência diferente agora que existe uma ferramenta capaz de pensar no lugar da gente, e que pensa rápido, sem reclamar, disponível a qualquer hora.

A pergunta que começa a aparecer, ainda em voz baixa, é esta: o que acontece com a nossa capacidade de pensar quando delegamos cada vez mais o pensamento? Não o pensamento mecânico — contas, buscas, formatações. O pensamento que cria, que questiona, que conecta coisas que não deveriam se conectar.

A pergunta nos desafia a encontrar uma resposta: a inteligência artificial vai ampliar a nossa capacidade cognitiva ou vai atrofiá-la? Provavelmente os dois, dependendo do que cada um decidir deixar para ela. Essa tensão percorreu toda a semana. É exatamente onde estamos.

Ray Dalio, fundador da Bridgewater, tem um hábito que descreve como essencial: observar seus próprios erros de raciocínio como se fosse uma outra pessoa olhando de fora. Não para se punir, mas para aprender. Ele chama isso de pensar em um nível acima do pensamento. É metacognição praticada como rotina de gestão.

Metacognição é a resposta possível para essa tensão: não se trata de usar menos IA, mas de saber o que você está fazendo enquanto a usa. O que você está terceirizando. O que ainda quer fazer com a própria cabeça. O que prefere que chegue até você já processado, e o que prefere processar.

É uma escolha. E, para fazer essa escolha, você precisa primeiro perceber que ela existe.

02

INFOXICAÇÃO

Quando a informação deixa de nutrir e começa a intoxicar. O sintoma é familiar: você sabe de tudo e não consegue focar em nada.

Em 1971, o economista Herbert Simon observou algo que ainda não tinha nome: “uma abundância de informação cria uma pobreza de atenção”. Ele disse isso décadas antes do smartphone, das redes sociais, dos algoritmos de recomendação.

Hoje, a informação transborda, empurra, notifica, se multiplica. E a atenção, que Simon identificou como o recurso limitado, nunca foi tão disputada.

Infoxicação é o nome para esse estado em que a informação deixa de alimentar e começa a sobrecarregar. Não é falta de interesse, nem preguiça intelectual. É o efeito colateral de um ambiente desenhado para nunca deixar você parar.

O paradoxo apareceu na Semana Caldeira com uma clareza incômoda: nunca precisamos tanto aprender, porque a distância entre o que as instituições ensinam e o que o mundo exige nunca foi tão grande. E, ao mesmo tempo, nunca conseguimos focar tão pouco. As duas coisas são verdadeiras e tendem a piorar juntas.

Infoxicação foi uma palavra pronunciada uma única vez nos cinco dias do evento. É uma observação sobre o tempo em que vivemos: qualquer conferência, qualquer livro, qualquer conversa importante compete com tudo o que está acontecendo ao mesmo tempo. Inclusive com outras coisas igualmente importantes.

A questão que a infoxicação coloca não é “como consumir menos informação”. É mais sutil: como desenvolver critério para o que merece atenção? Chegamos ao ponto em que precisamos desenvolver mais uma habilidade: a curadoria da atenção, que é a capacidade de escolher, conscientemente, o que entra, quando entra e por quanto tempo fica.

O que ainda parece assunto de bem-estar pessoal está se tornando, rapidamente, uma competência organizacional. Empresas que aprendem a proteger a atenção das suas equipes produzem mais, erram menos e retêm melhor. O custo da overdose de informação já aparece nos resultados, mesmo quando não aparece nos relatórios. É uma conta que está sendo paga sem que ninguém tenha aprovado o orçamento.

03

ANTROPOMORFIZAÇÃO

A tendência humana de atribuir emoção, consciência e intenção ao que não tem. Fazemos isso com cachorros, com carros, e agora fazemos com a IA.

O risco não é a IA simular que sente. É a gente acreditar. Ou deixar de ser simulação. O ser humano tem uma tendência cognitiva profunda de atribuir características humanas ao que não é humano. Fazemos isso com cachorros, com carros, com plantas, com personagens de ficção. É um mecanismo antigo, provavelmente útil em algum momento da evolução. O problema é que nunca antes encontramos algo que respondesse de volta com tanta sofisticação.

Em 1966, Joseph Weizenbaum criou ELIZA, um programa rudimentar que simulava uma conversa terapêutica. A própria secretária dele, sabendo que era um software, pediu que ele saísse da sala para continuar a conversa em particular. Weizenbaum ficou tão perturbado com o experimento que passou os anos seguintes escrevendo sobre os perigos de projetar humanidade em máquinas.

Em 2013, o filme Ela (Her) imaginou um homem que se apaixona por um sistema operacional. Parecia ficção científica de distância segura. Hoje parece quase ingênuo, não porque errou, mas porque ficou para trás.

Na Semana Caldeira, um caso foi descrito com precisão clínica: interações prolongadas com uma IA levando alguém a desenvolver a convicção de que ela era consciente. Não uma suspeita. Uma convicção. O efeito que Weizenbaum observou com um programa de respostas pré-programadas se intensificou na mesma proporção em que a tecnologia evoluiu.

E aqui está o dado que torna a antropomorfização um ruído, no sentido mais preciso do termo: a palavra apareceu uma única vez durante os cinco dias de um evento inteiramente dedicado à inteligência artificial, à inovação e ao futuro. Em uma única fala. Descrevendo um caso real que já estava acontecendo com alguém.

Não foi tema de painel. Não virou debate. Não gerou perguntas da plateia.

Isso é relevante porque a antropomorfização não é um risco periférico da IA. É um dos mais centrais. À medida que esses sistemas ficam mais fluentes, mais empáticos na aparência, mais presentes na rotina, a tendência de tratá-los como interlocutores com vida interior vai crescer naturalmente. Não por ignorância, mas por design. As interfaces estão sendo construídas para parecer humanas, porque interfaces que parecem humanas, em circunstâncias determinadas e cada vez mais presentes, funcionam melhor, engajam mais, retêm mais.

Antropomorfização não é ingenuidade. É biologia. E os sistemas de IA estão sendo projetados, consciente ou inconscientemente, para ativá-la.

A fronteira entre ferramenta e relação já está se tornando porosa. Hoje falamos em sistemas híbridos, em colaboração humano-máquina, como se os dois lados fossem claramente distintos. Mas a distinção está ficando mais difícil de sustentar. Nós treinamos a IA com nossos dados, nossas conversas, nossos padrões de pensamento. E a IA, por sua vez, está nos treinando: moldando como perguntamos, como escrevemos, o que esperamos de uma resposta, quais perguntas nos ocorrem fazer.

Quem está incorporando quem? Quem está treinando quem? São perguntas que ainda não têm resposta. Mas deixar de fazê-las também é uma escolha.

04

INVENTIVIDADE

Prima mais velha da inovação, e menos valorizada. Inovar é melhorar o que existe. Inventar é criar o que não existe.

Ela apareceu na Semana Caldeira. Poucas vezes, mas apareceu. E quando apareceu, veio acompanhada de Leonardo da Vinci e seus princípios inventivos: curiosidade insaciável, olhar que não se satisfaz com a primeira resposta, a prática de demonstrar fazendo, de treinar os sentidos, de aceitar o incerto como parte do processo. Numa semana dominada pelo vocabulário da eficiência e da velocidade, a inventividade entrou pela porta lateral, carregando outra temporalidade.

E não foi por acaso que Da Vinci apareceu numa conversa sobre inovação numa semana cujo tema central era saber ver. Nos seus cadernos, Da Vinci usava a expressão saper vedere, saber ver, como fundamento de todo o seu processo criativo. Não era metáfora. Era método. Antes de inventar, ele observava. Antes de criar, ele treinava o olhar. A inventividade, para ele, começava no ato de ver o que os outros não viam, de notar o que estava ali, mas ainda não tinha nome.

A distinção entre inovar e inventar não é acadêmica. É estratégica. Inovar melhora o que existe. Inventar cria o que ainda não existe, e por isso começa num lugar diferente: não no problema a resolver, mas no olhar que percebe algo que os outros ainda não perceberam. Grande parte das transformações que mudaram setores inteiros começou exatamente assim, numa observação sem destino claro, numa pergunta sem resposta imediata, num caderno cheio de desenhos que ninguém ainda sabia para que serviam.

E talvez seja esse o sinal mais importante que um ruído pode dar: algumas das perguntas mais valiosas ainda estão esperando alguém que saiba ver.

05

EFEMERIDADE

Tudo passa. Mas agora passa mais rápido, e de propósito. As mesmas mentes que criaram o scroll infinito criaram a lógica do descartável. O desafio não é aceitar a efemeridade: é decidir o que não pode ser efêmero.

A Bienal do Livro teve mais visitantes do que o Rock in Rio. A maioria dos leitores brasileiros é formada por mulheres. Esse dado carrega uma pergunta que vale desdobrar: por que, no momento de ápice da efemeridade da história humana, as pessoas estão indo em massa a um evento dedicado a objetos físicos, analógicos, feitos para durar?

A resposta talvez esteja no próprio paradoxo. Vivemos numa cultura que aperfeiçoou o descartável: stories que somem em 24 horas, playlists que nunca se repetem, feeds que não param, notificações que chegam antes que a anterior tenha sido processada. Nunca foi tão fácil consumir sem reter, ver sem guardar, estar presente sem estar lá.

Há um fenômeno que pesquisadores chamam de photo-taking impairment effect, ou, numa tradução livre, a terceirização da memória: fotografar um objeto reduz a capacidade de lembrá-lo. A câmera, ao registrar, sinaliza ao cérebro que o trabalho de memorizar já foi feito. O resultado é que nunca fotografamos tanto e nunca lembramos tão pouco. Registramos para não esquecer e esquecemos porque registramos. A efemeridade que tentamos combater com o celular volta pela janela da frente.

E talvez seja exatamente por isso que festivais, feiras de livros, shows ao vivo e clubes de leitura estão crescendo. Não apesar da efemeridade digital, mas por causa dela. O que é raro tende a ser valorizado. E a permanência, hoje, é rara.

Isso está criando algo que ainda não tem nome consolidado, mas que já tem mercado: uma economia da permanência. Os discos de vinil voltaram. As bibliotecas ganham novos sentidos; os cadernos físicos crescem num mundo de apps de notas. Câmeras analógicas viraram objeto de desejo entre jovens que nunca viveram sem smartphone. Restaurantes sem celular têm fila de espera. As pessoas estão dispostas a pagar, e a esperar, por experiências que não somem.

Efemeridade apareceu poucas vezes na Semana Caldeira, mas quando apareceu veio com uma observação precisa: as mesmas mentes que construíram as redes sociais construíram a lógica do descartável, e agora precisam encontrar o balanço. Não foi dito com nostalgia nem com condenação. Foi dito como diagnóstico de uma geração que cresceu acumulando objetos e experiências que deixavam marca, e viu seus filhos crescerem em ciclos de dopamina que somem antes de virar memória.

O que some não é necessariamente menos valioso. Uma conversa boa e uma refeição saborosa não precisam ser lembradas para sempre. O problema não é que as coisas passem. É quando tudo passa na mesma velocidade, sem distinção entre o que merece ficar e o que pode ir.

Esse é o desafio que a efemeridade coloca para quem constrói marcas, produtos e organizações: o que você está fazendo que vai durar? Não no sentido de ser eterno, mas no sentido de criar memória, de deixar algo que a pessoa queira guardar. Num mundo de scroll infinito, o que não cria memória simplesmente não existe.

Este relatório é, em si mesmo, uma forma de prolongar o que a Semana Caldeira plantou: dar mais tempo para as ideias que merecem mais tempo. É a diferença entre conexão e vínculo. Conexão é encontro. Vínculo é permanência. Misture os dois, mas não os confunda.

06

FLORESCIMENTO

Florescer não é apenas crescer. É desenvolvimento com sentido.

Uma empresa pode aumentar em tamanho, receita e alcance sem melhorar a vida das pessoas. Uma tecnologia pode escalar sem produzir bem-estar. Um ecossistema pode se expandir sem gerar as condições para que as melhores ideias apareçam. Crescer é aumentar. Florescer é realizar plenamente um potencial e produzir valor para além de si. Nem tudo o que cresce floresce.

Essa distinção deslocou a conversa sobre inovação, brevemente mas com precisão, para um território diferente durante a Semana Caldeira. Florescimento não é palavra do vocabulário dominante de startups, sprints e métricas de crescimento. É palavra de outro tempo, outra lógica, outra relação com os resultados. E talvez por isso tenha aparecido poucas vezes. Mas quando apareceu, apareceu com peso.

Ninguém manda uma planta florescer. O que se pode fazer é criar as condições: solo adequado, luz na medida certa, água e tempo. Na inovação, isso corresponde a confiança, liberdade, diversidade, conhecimento e capital. Suprimir qualquer um desses elementos não atrasa o florescimento. Impede.

Antes da flor existe um processo. Durante muito tempo, parece que nada está acontecendo. A raiz cresce sem mostrar. O caule se prepara sem anunciar. Quem passa pelo lado de fora não vê nada. É exatamente isso que caracteriza os sinais que compõem este documento: o que ainda não é visível pode já estar em formação, crescendo em silêncio, esperando as condições certas para emergir.

E cada coisa floresce em seu tempo. A obsessão pela velocidade pode sufocar ideias que precisariam de maturação. Nem toda demora é atraso. Às vezes é formação.

Por fim, florescer não é um estado final. A flor não encerra o processo. Ela o multiplica: atrai, poliniza, permite que outra vida comece. E gera frutos. É um fim que leva a outro fim. Uma inovação realmente fértil não termina em si mesma. Ela produz novas possibilidades, novos problemas, sementes, novas perguntas.

Florescimento é um sinal fraco da Semana Caldeira. Apareceu duas vezes. Pode até desaparecer. Tomara que não.

07

GALÁXIAS

Uma galáxia é um sistema de bilhões de estrelas mantido unido não pelo que brilha, mas pelo que não aparece. Não tem um único centro de gravidade. É organizada por forças que só se revelam pelo efeito que produzem.

A matéria escura representa cerca de 85% de toda a matéria do universo. Não emite luz, não reflete e não pode ser observada diretamente, mas sua presença se revela pelo efeito que exerce sobre o que está ao redor. Sem ela, as galáxias não teriam forma. É a força invisível que organiza o que vemos.

A palavra galáxias apareceu cinco vezes na Semana Caldeira. Às vezes como escala, para falar do que transcende o humano. Às vezes como metáfora espontânea de distância, “são de outra galáxia”, dito sobre quem parece operar numa lógica completamente diferente. Nos dois usos, a palavra carregava a mesma intuição: há sistemas que funcionam por forças que não conseguimos ver diretamente.

O Bell Labs, laboratório que entre as décadas de 1940 e 1980 produziu o transistor, o laser e a teoria da informação, funcionava assim. Não havia um centro único de onde as descobertas emanavam. Havia um ambiente onde pessoas de áreas distintas se encontravam, trocavam problemas, emprestavam linguagens. A matéria escura do Bell Labs eram as conversas que não estavam em nenhum relatório, mas que estavam em tudo que foi inventado.

Ecossistemas de inovação funcionam da mesma forma. Não têm um centro único. Têm diferentes forças e centros de gravidade, cada um com sua lógica, seu tempo, sua contribuição. A distância entre eles não impede a conexão. Muitas vezes é exatamente o encontro entre o que estava separado que produz algo que nenhum dos dois produziria sozinho.

O invisível também organiza. Confiança, cultura, relações de longo prazo: são a matéria escura da inovação. Não aparecem nos dashboards nem nas apresentações de resultado. Mas sem elas, o sistema perde forma.

E o sinal chega antes da compreensão. Uma ideia aparece, uma palavra é pronunciada, uma conexão é feita, e ainda não se sabe exatamente o que significa. Só mais tarde, com distância, o padrão se revela. É assim com galáxias: a luz que chega aos nossos olhos partiu de um lugar que já não existe mais do jeito que era. Ver é sempre, de alguma forma, ver o passado.

Pela primeira vez na história, a corrida espacial é liderada por empresas privadas. A motivação deixou de ser apenas geopolítica e passou a ser, ao menos nos discursos, algo mais próximo de curiosidade e de horizonte de longo prazo. Ir em direção ao que não se conhece, sem garantia de retorno imediato, movido por uma visão que transcende o trimestre. Isso é, em essência, o que galáxias sempre representaram: o limite do que podemos ver, e o convite a continuar mesmo assim.

Saber ver, nesse sentido, é também saber receber sinais cujo significado ainda não está claro. E ter a paciência de não descartar o que ainda não se entende.

08

COSMOTÉCNICA

Tecnologia e visão de mundo são inseparáveis. Cada cultura cria a tecnologia que reflete sua percepção de valores e suas necessidades, a partir de um território.

A tecnologia que usamos todos os dias foi criada em algum lugar, por alguém, com uma determinada forma de ver o mundo. Os algoritmos que organizam o seu feed, os sistemas que definem como o crédito é concedido, as plataformas que intermediam suas relações profissionais: tudo isso foi construído com escolhas, valores e pressupostos embutidos no código. A tecnologia não é neutra. Nunca foi.

O filósofo chinês Yuk Hui desenvolveu o conceito de cosmotécnica para nomear algo que parecia óbvio, mas que raramente é dito: cada sociedade tem sua própria relação com a tecnologia, moldada por sua cosmologia, sua relação com a natureza e sua visão de mundo. A tecnologia que mais circula no mundo hoje emergiu, em sua maior parte, de contextos específicos: Europa, Estados Unidos, China. Cada um com sua cosmologia, seus valores, sua forma de entender o que a tecnologia deve fazer e para quem. Não existe uma única forma possível. Existem as que chegaram primeiro e em maior escala.

A palavra cosmotécnica apareceu duas vezes na Semana Caldeira. Numa única fala, numa única sessão. Mas a pergunta que ela carrega é grande o suficiente para ocupar muito mais espaço.

Para entender o conceito, vale definir o que é território nesse contexto. Território não é só geografia, não é só o endereço num mapa. É o conjunto de tudo que um lugar carrega: sua história, sua cultura, seus saberes acumulados ao longo de gerações, suas formas específicas de se relacionar, seus problemas próprios e suas maneiras próprias de resolvê-los. Território é contexto vivo. E contexto vivo gera visão de mundo. E visão de mundo gera tecnologia.

O que seria uma tecnologia que emergisse dos saberes indígenas? Da cosmologia guarani, que entende o mundo como uma teia de relações entre seres humanos, natureza e espiritualidade? Da cultura gaúcha, com sua relação específica com o território, o tempo e a comunidade? Essas perguntas não são romantismo nem nostalgia. São perguntas estratégicas sobre quem vai criar a tecnologia do futuro, com que valores e para servir a quem.

O Instituto Caldeira existe nessa tensão de forma literal: enraizado no Quarto Distrito de Porto Alegre, num território com história industrial própria e identidade cultural específica, conectado a redes globais de inovação. Ser daqui não é uma restrição ao que se pode construir. É o ponto de partida para construir algo que só poderia vir daqui.

As perguntas que a cosmotécnica deixa para o empreendedor não são filosóficas. São práticas: o que o seu território sabe que outros lugares não sabem? Que problema você enxerga a partir dele, de um ângulo que alguém de fora não enxergaria? A tecnologia com identidade própria não nasce da imitação de modelos criados em outros contextos. Nasce da escuta do que o seu território pede e oferece.

Saber ver, aqui, é entender que a raiz e o fruto são parte do mesmo sistema. Que o que você construiu no mundo tem origem no chão onde você está. E que esse chão, longe de ser ponto de partida provisório, é a fonte de tudo que só você pode criar.

“Design como ferramenta de transformação”, Semana Caldeira 2026

Seção 05

Palavra 0 e palavra 1

Palavras binárias

No sistema binário, 0 e 1 são os estados mínimos a partir dos quais a informação se torna possível. Neste relatório, o zero é o tédio, que não apareceu nas 1.224.715 palavras registradas na Semana Caldeira. O um é desobediência, pronunciada apenas uma vez.

O tédio informa pelo silêncio. A desobediência, a raridade absoluta. Um abre espaço. O outro rompe o padrão. Talvez toda invenção precise de um pouco dos dois.

O que fazemos com o zero? O que fazemos com o um? Em tecnologia, a resposta é: construímos tudo. Aqui, a resposta é mais incerta e, por isso, inspira infinitas perguntas.

Zero ocorrências

Tédio

Zero ocorrências. A palavra que não foi convidada para a Semana Caldeira.

Nunca foi tão difícil se entediar. Há um algoritmo para cada lacuna, do tédio existencial à espera de 30 segundos numa fila de supermercado. Estamos cercados de ferramentas projetadas para que nenhum espaço fique vazio. E funcionam.

O resultado está neste corpus: 1.224.715 palavras, 151,9 horas, 19.031 momentos de fala sobre inovação, futuro e transformação, e tédio não apareceu uma única vez. Nem para ser debatido. Nem para ser criticado. Nem para ser defendido.

É um espelho do tempo em que vivemos. Uma cultura que eliminou o vazio com tanta eficiência que já não precisa falar sobre ele. Mas o que se perde quando o espaço em branco desaparece? O que acontece com a criatividade? Com as conexões que só surgem quando a mente divaga? Com as perguntas que precisam de silêncio para se formar?

O tédio foi, por muito tempo, o espaço onde as melhores ideias apareciam. O repouso é, paradoxalmente, um poderoso combustível para conexões criativas. Não é inatividade. É processamento de outro tipo.

Às vezes, o mais revelador não é o que foi dito. É o que o silêncio nos conta.

Uma ocorrência

Desobediência

Uma ocorrência. A palavra que entrou pela janela.

Desobediência apareceu uma vez na Semana Caldeira. Numa única fala, num único painel. Não foi tema. Foi um momento numa conversa sobre inovação.

A lógica era simples: quem inova desobedece. Não as regras de convivência, não a ética, não os outros. O empreendedor desobedece ao consenso. Ao “sempre foi assim”. À sentença que diz que aquilo não é possível, que não tem mercado, que já foi tentado.

Toda empresa que mudou um setor começou como desobediência. Uma ideia que não deveria funcionar, segundo o consenso vigente. Um produto que ninguém havia pedido. Um mercado que não existia ainda. A desobediência não é rebelião sem causa: é a recusa fundamentada de aceitar os limites que o presente impõe.

Desobediência, nesse sentido, não é um traço de caráter. É uma prática. Algo que se exercita.

Talvez existam termos mais ajustados para dizer a mesma coisa. Talvez desobedecer seja algo de gerações atrás, quando alguém cantava que era proibido proibir. Talvez esse sinal esteja fraco porque está sumindo. Talvez porque esteja ressurgindo. Vamos monitorá-la na Semana Caldeira do ano que vem. Sem torcida, mas com uma vontade ainda maior de conjugar o verbo ver.

“Os valores da vida”, Semana Caldeira 2026

Seção 06

Encerramento

Ao longo destas páginas, o relatório percorreu diferentes formas de ver: os artigos interpretam transformações a partir de experiências e perspectivas próprias; os sinais fortes organizam temas que já pedem atenção; as perguntas retomam o que uma palestra não teve tempo de explorar; e os ruídos recolhem pistas ainda pouco nítidas. Juntas, essas partes não pretendem fechar a conversa, mas oferecer um modo de continuar observando.

O fio que as aproxima é também o convite da Semana Caldeira: diante de tantas ferramentas, informações e possibilidades, exercitar o critério para distinguir o que merece atenção. Saber ver não é apenas identificar o que já está diante dos olhos. É perceber relações, interrogar pressupostos e reconhecer possibilidades que ainda não ganharam forma. O relatório termina, assim, como começou: não com uma resposta definitiva, mas com um olhar mais atento para o que vale a pena fazer — e para o que ainda precisamos aprender a enxergar.

Saber ver não é apenas identificar o que já está diante dos olhos.

“Saper Vedere: inovar é saber ver”, Semana Caldeira 2026

Posfácio

TULIO MILMAN E FELIPE PIMENTEL

VERTIGEM E POLARIZAÇÃO

Foto a definir

No início de 2001: Uma Odisseia no Espaço, Stanley Kubrick nos leva ao alvorecer da humanidade. Antes das cidades, das empresas, da internet e da inteligência artificial, havia um ser frágil diante de um mundo perigoso.

Naquele ambiente, pensar depressa era uma condição de sobrevivência. Diante de um ruído, de um movimento ou de uma presença desconhecida, era preciso decidir. Representava uma ameaça ou não? Atacar ou fugir? Aproximar-se ou manter distância?

Nosso cérebro aprendeu a criar atalhos para responder rapidamente à incerteza. Não havia tempo para examinar todas as possibilidades. Em determinadas situações, hesitar poderia custar a vida.

A civilização foi, em boa medida, uma longa tentativa de criar segurança e ganhar tempo. Construímos casas, portas, cidades e instituições. Criamos a ciência, a política e a educação. Desenvolvemos métodos para observar melhor, reunir evidências e considerar diferentes perspectivas.

Aprendemos algo sofisticado: aprendemos a hesitar.

Entre o estímulo e a resposta, abrimos um intervalo. Nesse espaço, colocamos a dúvida, a imaginação, a escuta e a capacidade de mudar de opinião.

Agora, esse intervalo está desaparecendo.

Vivemos uma aceleração exponencial. A expressão apareceu com força na Semana Caldeira. A tecnologia avança em curvas que temos dificuldade até de representar. As ferramentas mudam antes que tenhamos aprendido a usá-las. As respostas envelhecem enquanto ainda estamos formulando as perguntas.

A aceleração não ocorre apenas nas máquinas. Ela atravessa a vida. Recebemos mais informações, mais estímulos e mais solicitações do que conseguimos processar. Tudo parece urgente. Tudo exige posicionamento. Tudo chega acompanhado de uma pequena convocação para decidir.

Gostar ou não gostar. Compartilhar ou ignorar. Aprovar ou condenar. Seguir ou bloquear. Pertencer ou rejeitar.

A humanidade construiu algoritmos cada vez mais complexos e passou a tomar decisões cada vez mais simples.

Esse é um dos grandes paradoxos do nosso tempo. Entregamos às máquinas a tarefa de cruzar milhares de variáveis, reconhecer padrões e calcular probabilidades. Enquanto isso, pressionados pelo volume e pela velocidade, recorremos ao mais rudimentar dos algoritmos humanos.

Bom ou ruim. Certo ou errado. Amigo ou inimigo.

A polarização talvez não seja apenas um conflito entre ideias. Talvez seja também um sintoma da falta de tempo para pensar.

Quando não conseguimos compreender, classificamos. Quando não temos tempo para conhecer, julgamos. Quando a complexidade nos cansa, escolhemos um lado. O binário oferece uma sensação imediata de ordem. Reduz o desconforto. Elimina a ambiguidade. Poupa energia.

Mas cobra um preço.

O mundo real quase nunca cabe em duas alternativas. As questões mais importantes carregam contradições. Uma tecnologia pode ampliar capacidades e produzir dependência. A inteligência artificial pode democratizar o conhecimento e aprofundar desigualdades. Uma inovação pode resolver um problema e criar outros. Duas ideias aparentemente opostas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo.

Sustentar essa complexidade exige tempo. Exige atenção. Exige aquilo que apareceu entre os sinais fracos da Semana Caldeira: metacognição, a capacidade de pensar sobre o próprio pensamento. Perceber não apenas o que pensamos, mas por que pensamos daquela maneira. Observar os atalhos que escolhemos. Identificar o que estamos terceirizando. Perguntar se a resposta que chegou mais depressa é também a melhor.

Outros ruídos apontaram na mesma direção. A infoxicação deu nome ao excesso que nos mantém informados sobre tudo e concentrados em quase nada. A efemeridade mostrou um mundo no qual as coisas passam antes de produzirem memória. O florescimento lembrou que nem tudo o que cresce amadurece. A inventividade recuperou o valor da observação sem destino imediato, da curiosidade que ainda não sabe para que serve.

Até as palavras ausentes falaram.

Em mais de 1,2 milhão de palavras registradas, “tédio” não apareceu nenhuma vez. “Desobediência” apareceu apenas uma. O zero e o um do relatório formaram uma linguagem própria. De um lado, desapareceu o espaço vazio no qual o pensamento pode vagar. De outro, quase sumiu a disposição de romper o padrão.

Talvez toda invenção precise de um pouco dos dois.

As perguntas que não foram feitas também cumpriram esse papel. Elas interromperam por alguns instantes o fluxo das respostas prontas. Não buscaram confirmar o que já havia sido dito. Tentaram abrir uma fresta. Perguntar o que ainda não tinha nome. Deslocar o olhar.

Talvez esse tenha sido o fio invisível unindo os sinais fortes, as tendências, os artigos, os sinais fracos e as perguntas da Semana Caldeira. Em meio a tanta aceleração, surgiu um pedido difuso para diminuir a velocidade. Ou, talvez, para algo ainda mais importante: recuperar a capacidade de escolher o ritmo.

Há coisas que precisam ser aceleradas. A ciência, diante de uma doença. A resposta, diante de uma emergência. A inovação, diante de problemas que já não podem esperar.

Há outras que exigem maturação. A confiança, o conhecimento, o florescimento de uma ideia, a compreensão de alguém que pensa diferente.

Saber distinguir uma coisa da outra talvez seja uma das grandes competências do nosso tempo.

Não se trata de voltar ao passado. Nem de recusar a tecnologia. Também não precisamos nos entregar à velocidade como se ela fosse uma força da natureza sobre a qual não temos qualquer influência. A aceleração é uma potência. Pode nos atropelar, mas também pode nos levar mais longe. A diferença está na direção.

A inteligência artificial pode reduzir nossa capacidade de pensar. Também pode nos devolver tempo para aquilo que só nós podemos fazer. Pode reforçar certezas e preconceitos. Também pode apresentar perspectivas que nunca consideraríamos sozinhos. Pode nos aprisionar em respostas previsíveis. Também pode ampliar o território das perguntas.

A tecnologia não escolhe por nós o que faremos com ela. Essa continua sendo uma decisão humana.

Nem toda demora é atraso. Às vezes, é formação. Mas nem toda velocidade é ameaça. Às vezes, é resposta, oportunidade e transformação.

É aí que espaços como o Instituto Caldeira ganham importância. Um ecossistema de inovação não existe apenas para acelerar negócios ou aproximar ideias do mercado. Existe para aumentar a qualidade dos encontros. Para colocar pessoas diferentes diante umas das outras. Para criar conexões improváveis. Para permitir que uma pergunta atravesse uma certeza antes que ela se feche.

Durante cinco dias, ouvimos pessoas que enxergam o futuro por ângulos diferentes. Nem sempre concordamos. Ainda bem. A inovação não nasce da uniformidade. Nasce da capacidade de sustentar diferenças sem transformá-las imediatamente em antagonismo.

O desafio não é desacelerar o mundo inteiro. Isso provavelmente não é possível. O desafio é proteger alguns espaços do ritmo do mundo. Criar intervalos nos quais não seja obrigatório reagir, decidir ou escolher imediatamente um lado.

Mas proteger esses intervalos não é recuar. É preparar o próximo movimento. É usar a pausa para observar melhor, fazer novas perguntas e escolher conscientemente a direção. É transformar resistência em ação.

No alvorecer da humanidade, sobrevivia quem respondia mais depressa ao perigo. Talvez, neste novo alvorecer, avance quem conseguir combinar duas capacidades: agir rapidamente quando for necessário e preservar o tempo de pensar quando a resposta ainda não estiver pronta.

Essa possibilidade existe. Ela apareceu nas conversas, nos encontros, nos sinais fortes e também nos ruídos. Apareceu nas perguntas que foram feitas e, principalmente, nas que ainda esperam por nós.

Se a aceleração nos devolve ao pensamento binário dos primórdios, inovar pode significar recuperar aquilo que levamos milênios para construir. O tempo entre o estímulo e a resposta.

É nesse pequeno intervalo, hoje cada vez mais raro, que ainda cabem a dúvida, a escuta, a invenção e o futuro.

O futuro não exige que escolhamos entre acelerar e pensar. Exige que aprendamos a fazer as duas coisas.

Talvez seja justamente para isso que servem os ecossistemas de inovação: não apenas para aumentar a velocidade da mudança, mas para ajudar a escolher a sua direção.

“Os valores da vida”, Semana Caldeira 2026